Subclássicos: BATHORY — Bathory (1984)
Discoteca Básica de noise-rock, metal extremo, post-rock, noise, experimental e outras tags subterrâneas
Quando o auto-intitulado álbum de estreia do BATHORY foi lançado em 1984, o metal extremo ainda era um território nebuloso e sem formas definidas. O thrash começava a ganhar peso e velocidade com Metallica, Slayer e Exodus; o death metal estava apenas germinando com Possessed e Death ensaiando seus primeiros movimentos; e o black metal como estética estava apenas sendo rascunhado com Venom e Hellhammer. Foi nesse cenário que um jovem sueco chamado Quorthon, ao lado do então desconhecido baterista Jonas Åkerlund — o mesmo que anos mais tarde viraria um diretor de sucesso, dirigindo clipes da Madonna e Lady Gaga — começou a moldar uma estética que não se parecia com nada que existisse até então. Bathory, seu álbum de estreia, não apenas radicalizou a sujeira e a ferocidade do metal, como também inaugurou uma nova gramática sonora, visual e espiritual que décadas depois seria reconhecida como o marco fundador do black metal.
A influência anterior mais clara é o Venom, a partir da estética anticristã e a distorção saturada de álbuns como Welcome to Hell (1981) e Black Metal (1982). Mas enquanto o Venom tinha um pé muito forte no hard rock e no speed metal de bandas como o Motörhead, o Bathory propõe algo muito mais extremo, mergulhando em um ambiente gélido e praticamente desumano. A velocidade aumenta, a gravação se torna ainda mais crua, o clima é macabro, e o resultado é muito mais intenso e avassalador do que qualquer coisa que existia antes.
“Hades”, a primeira faixa “de verdade” após uma abertura instrumental, já marca o território com a mixagem cheia de reverb, os vocais rasgados, a bateria ácida e a distorção serrada. Em “Reaper” e “Necromansy” o Bathory transforma a velocidade e a sujeira em linguagem, como se o som estivesse sendo corroído por dentro. O álbum inteiro é marcado por uma atmosfera opressiva que combina satanismo, mitologia e uma sensação de isolamento extremo, algo muito diferente do metal britânico ou americano daquele momento.
O impacto posterior de Bathory é quase impossível de medir em termos apenas musicais. Bandas como Mayhem, Darkthrone, Immortal, Burzum e praticamente toda a cena escandinava absorveram ainda mais a produção crua, a teatralidade macabra, a atmosfera sombria e a iconografia demoníaca, gerando o que ficou conhecido como “a segunda onda do black metal” a partir dos anos 90. Até bandas contemporâneas como Deafheaven, Blut Aus Nord e Oranssi Pazuzu têm como base o que o Bathory criou ali.
Com o passar dos anos, Quorthon foi abandonando gradualmente a estética satânica em direção a algo completamente diferente: um metal épico pagão, impregnado de heroísmo nórdico, melodias vastas e ambições quase cinematográficas, inaugurando o que mais tarde seria chamado de viking metal. Com isso, o Bathory ocupa um lugar raríssimo na história da música extrema, o de ter inventado dois gêneros distintos e igualmente influentes, cada um deles capaz de transformar gerações inteiras de outros artistas.
Bathory é um daqueles momentos raros em que um artista, isolado e sem recursos, atua como um catalisador de forças históricas que ainda estavam dispersas. O álbum é o som de uma ruptura absoluta, um grito áspero e incendiário que mais de quarenta anos depois continua influenciando a música extrema e atmosférica.
Ouve essa aqui: “Hades”
BATHORY — Bathory
Lançamento: out/1984
Selo: Black Mark/Tyfon
Tags: #black-metal
Produção: Quorthon, The Boss



