Subclássicos: HOLE — Pretty On The Inside (1991)
Discoteca Básica de noise-rock, metal extremo, post-rock, noise, experimental e outras tags subterrâneas
Antes de se tornar uma das figuras mais midiáticas do rock dos anos 90, Courtney Love surgiu no subterrâneo americano com um álbum que parecia deliberadamente hostil à ideia de acessibilidade. Pretty On The Inside, estreia do HOLE lançada em 1991, mistura punk, noise-rock e caos emocional em um registro abrasivo que se distancia bastante da sonoridade mais polida que a banda adotaria mais tarde em Live Through This (1994) e especialmente em Celebrity Skin (1998).
O Hole, formado quando Love buscava músicos com influências de Big Black, Sonic Youth e Fleetwood Mac, surge em um momento de transição importante no rock alternativo americano. O hardcore já se fragmentava em diversas direções, enquanto o noise-rock e o grunge ganhavam força no subterrâneo, ascendendo o fósforo para a explosão do Nirvana. O Hole absorve elementos dessa movimentação, especialmente a dissonância violenta do Sonic Youth e a agressividade desconexa da no-wave de Lydia Lunch. A presença de Kim Gordon como produtora também ajuda a aproximar o álbum dessa linhagem do noise-rock nova-iorquino.
Musicalmente, Pretty On The Inside opera em constante estado de instabilidade. As guitarras parecem sempre próximas do colapso, alternando riffs simples com explosões de feedback e ruído, enquanto os vocais de Courtney Love oscilam entre vulnerabilidade, sarcasmo e violência. Há uma sensação permanente de descontrole, mas ela é usada de forma consciente, quase performática, como parte central da estética do trabalho. “Esse álbum é inaudível”, declararia a própria Courtney Love anos mais tarde.
As letras reforçam esse desconforto. O trabalho aborda sexualidade, violência, corpo e identidade feminina de maneira agressiva e fragmentada, desmontando imagens tradicionais de feminilidade dentro do rock alternativo da época. Em vez de buscar distanciamento cool ou ironia sofisticada, o Hole transforma excesso emocional em linguagem estética, algo que posteriormente se tornaria influência importante para diversas artistas do rock alternativo e do movimento riot grrrl.
Pretty On The Inside teve repercussão mediana na época, essencialmente no circuito independente. O Hole só alcançaria o estrelato alternativo nos anos seguintes, especialmente no excelente Live Through This (1994) e no bem-comportado Celebrity Skin (1998). Courtney Love ainda lançaria um álbum solo (America’s Sweetheart) em 2004 antes de voltar com o Hole em 2010 com Nobody’s Daughter e entrar em hiato por tempo indeterminado. Nada do que ela fez depois chega perto da abrasividade e do caos do seu álbum de estreia. Pretty On The Inside foi uma influência definitiva para bandas e artistas dos anos 90 que buscavam unir ruído, vulnerabilidade e agressão emocional de forma tão visceral.
Ouve essa aqui: “Teenage Whore”
HOLE — Pretty On The Inside
Lançamento: 17/set/1991
Selo: Caroline, City Slang
Tags: #noise-rock, #punk-rock, #grunge, #riot-grrrl
Produção: Kim Gordon, Don Fleming



