Subclássicos: LOU REED — Metal Machine Music (1975)
Discoteca Básica de noise-rock, metal extremo, post-rock, noise, experimental e outras tags subterrâneas
Lançado em 1975, Metal Machine Music foi o álbum que destruiu todas as pontes que Lou Reed havia construído com hits como “Walk on the Wild Side” e “Perfect Day”. Um LP duplo de mais de uma hora, composto inteiramente por camadas de feedback, distorções, drones e ruído, como uma provocação intencional contra tudo e contra todos. Mas por baixo dessa superfície cínica, o que Metal Machine Music propõe é muito mais radical: a fundação de um novo tipo de escuta.
Lou Reed já havia flertado com o experimental desde os tempos do Velvet Underground, banda que ajudou a dissolver as fronteiras entre o rock e a arte conceitual. Mas aqui ele elimina o componente rock e mergulha de cabeça na arte vanguardista, inspirado em compositores como La Monte Young, Tony Conrad, Iannis Xenakis e as práticas de drone e microtonalismo da cena minimalista radical. O resultado é uma parede de som brutal, saturado, infinito, como uma espécie de sinfonia do recalque extremo.
Diz a lenda que Lou Reed gravou o disco como um trote para a gravadora RCA, cansado de contratos e expectativas. Mas o próprio Reed se contradizia em entrevistas, dizendo que era “a coisa mais composicionalmente sofisticada” que já tinha feito. Em ambos os casos, o que temos é um artista que rejeita a função do som como entretenimento e o reconstrói como matéria bruta.
Metal Machine Music antecipa o noise japonês, o power electronics, o drone metal do Sunn O))), e até os experimentos de Merzbow ou Fennesz, mas feito com um espírito punk e uma ironia tipicamente nova-iorquina. Foi também um dos primeiros momentos em que um artista pop de grande visibilidade abraça totalmente a anti-música — talvez só John Lennon tenha chegado perto com seu Two Virgins alguns anos antes.
O resultado: não só ninguém entendeu nada, como também ninguém comprou a provocação. O álbum foi devolvido às lojas, ridicularizado pela crítica, e três semanas depois retirado de catálogo. Mas ao longo das décadas, passou a ser reconhecido como documento seminal da música extrema, sendo até interpretado ao vivo por grupos como o Zeitkratzer e Metal Machine Trio, ambos com o próprio Lou Reed na formação.
Metal Machine Music claramente não é para todos. É difícil encará-lo mesmo para os mais familiarizados com música provocativa. Mas quem se arriscar e tiver a sorte de ouvir o vinil original, o ruído segue tocando infinitamente no sulco final, aquele que fica em loop mantendo a agulha longe do selo central. Para Lou Reed, o ruído é infinito.
Ouve essa aqui: “Metal Machine Music Pt. 1”
LOU REED — Metal Machine Music
Lançamento: jul/1975
Selo: RCA Victor
Tags: #noise
Produção: Lou Reed
Subsensor é editado por Elson Barbosa.
Elson Barbosa é editor do Subsensor, produtor do selo Sinewave e baixista da banda Herod. Foi apresentador do podcast O Resto É Ruído, criador da plataforma de playlists comentadas contra.fm onde produziu os programas Noisenik, T20, Sinewave e Discografando, apresentador dos programas de rádio Noisenik na Antena Zero e Barulho na Rádio USP São Carlos, colaborador da #ListadasListas, editor do blog de playlists Discografando e colaborador bissexto em diversos sites de música.



