Subclássicos: SCOTT WALKER — Tilt (1995)
Discoteca Básica de noise-rock, metal extremo, post-rock, noise, experimental e outras tags subterrâneas
Não existe trajetória tão errática como a de SCOTT WALKER. De astro pop nos anos 60, passando pelo easy listening nos 70 e culminando na vanguarda extrema dos seus últimos trabalhos, Walker desenhou uma história como nunca se viu em nenhum outro momento na cultura popular.
Scott Walker iniciou sua carreira ainda nos anos 50, gravando singles de pouco sucesso sob o nome Scott Engel, seu verdadeiro nome. Nos anos 60 virou ídolo teen à frente dos Walker Brothers, um fenômeno do pop orquestral que com hits como “The Sun Ain’t Gonna Shine Anymore” rivalizava em histeria popular com os próprios Beatles. Sua carreira solo inicial, especialmente na quatrilogia que vai do Scott 1 (1967) ao Scott 4 (1969), já apontava para um artista interessado em expandir seus limites artísticos, incorporando arranjos sombrios, inspirações em Jacques Brel e no existencialismo europeu. Mas após um período de declínio comercial nos anos 70, uma breve volta dos Walker Brothers e um álbum solo em 1984, Walker desapareceu do radar.
Tilt, lançado em 1995, emerge desse hiato como um artefato quase alienígena dentro da música popular. Lançado em um momento em que o mainstream britânico era dominado pelo britpop do Oasis, Blur e Pulp, o álbum ignora completamente qualquer tendência contemporânea. Em vez disso, Walker constrói uma linguagem própria, mais próxima da música vanguardista do que de qualquer tradição pop reconhecível. Há ecos da densidade orquestral e dissonante de Krzysztof Penderecki, das paisagens gélidas do Marble Index e Desertshore da Nico, das ambiências do Brian Eno, e até da lógica textural da música industrial. Walker reorganiza esses elementos dentro de uma estrutura que ainda carrega vestígios da canção com letra e melodia, mas os submete a uma lógica de tensão abstrata e constante.
Apesar de um desafio comercial, aos poucos Tilt se tornou uma referência subterrânea para artistas interessados em tensionar os limites do formato canção. É possível traçar uma linha que passa por David Bowie (um fã ardoroso) na fase Blackstar, pela teatralidade sombria de Nick Cave, pelo indie experimental do Radiohead e Björk, e até de vertentes mais extremas da música experimental e do drone. Jarvis Cocker tem em Walker uma referência tão direta que ele foi convidado a produzir We Love Life (2001) do Pulp, com direito a ter seu álbum ‘Til The Band Comes In sacaneado na letra de “Bad Cover Version”.
E Tilt foi só um rascunho — álbuns posteriores como The Drift (2006), Bish Bosch (2012) e a parceria com o Sunn O))) em Soused (2014) amplificariam ainda mais essa abordagem, consolidando-o como uma espécie de limbo artístico entre o passado popular e o presente vanguardista. Tilt acaba representando um ponto de inflexão, não apenas na carreira do artista, mas na própria ideia do que um álbum “popular” pode ser. Uma obra que pede uma espécie de imersão profunda, quase como se cada faixa fosse um sistema complexo a ser explorado.
Ouve essa aqui: “The Cockfighter”
SCOTT WALKER — Tilt
Lançamento: 08/mai/1995
Selo: Fontana, Drag City
Tags: #avant-garde, #experimental
Produção: Scott Walker, Peter Walsh



