Subclássicos: SILVER APPLES — Silver Apples (1968)
Discoteca Básica de noise-rock, metal extremo, post-rock, noise, experimental e outras tags subterrâneas
Em um tempo em que a música eletrônica era quase exclusivamente domínio de laboratórios ou compositores de conservatório, dois nova-iorquinos excêntricos — Simeon Coxe e Danny Taylor — lançaram um álbum que parecia uma transmissão vinda do futuro. Silver Apples (1968) não soava como nada ao seu redor: sem guitarras ou jams psicodélicas embebidas em ácido, o que havia eram osciladores caseiros, baterias tribais e letras quase alienígenas, cantadas com uma entrega entre o robótico e o infantil. Um verdadeiro OVNI sonoro pousado no meio da psicodelia tardia.
A espinha dorsal do som era um aparelho caseiro feito com partes recicladas de geradores de som e osciladores de áudio militar. Simeon os modulava em tempo real com botões, chaves, alavancas e até pedais de órgão, criando drones, pulsares, zumbidos, loops e ruídos percussivos. Tudo isso apoiado na bateria repetitiva, quase xamânica, de Danny Taylor. Juntos, eles criaram um som hipnótico, antecipando o krautrock, a música industrial e até o techno.
Canções como “Oscillations” e “Seagreen Serenades” soam como uma espécie de proto-techno perdidos num deserto ácido. “Program” e “Dust” flertam com um tipo de música ambiental rudimentar, enquanto “Dancing Gods” tem uma batida tribal minimalista e hipnótica. Não há melodias grudentas nem virtuosismos, somente ritmo, repetição, textura e ruptura, como se Terry Riley tivesse se encontrado com Alan Vega numa garagem cheia de fios desencapados.
Historicamente o álbum é um ponto fora da curva. Não é exagero dizer que o Silver Apples rascunhou a música experimental dos anos 70 em diante — artistas como Can, Kraftwerk, Suicide, Flaming Lips e Tame Impala certamente passaram por aqui. Sem Silver Apples não existiriam o Third do Portishead nem o King of Limbs do Radiohead.
Na época o disco passou quase despercebido, salvo por alguns poucos ouvidos atentos. E ainda assim ele marca uma inflexão crucial: é um dos primeiros álbuns de música eletrônica aplicada à linguagem pop, feita com atitude DIY, fora dos estúdios clássicos e dos círculos acadêmicos.
A banda ainda lançaria um segundo álbum (Contact, 1969) antes de encerrar suas atividades. Simeon ainda voltaria para alguns shows e gravações nos anos 90, lançaria um último álbum de inéditas (Clinging To a Dream) em 2016 e morreria pouco depois, em 2020. Mas o legado já estava definido no álbum de estreia, um trabalho que liga o experimentalismo dos anos 60 à música de pista das décadas seguintes, passando por todas as revoluções subterrâneas no caminho.
Ouve essa aqui: “Oscillations”
SILVER APPLES — Silver Apples
Lançamento: jun/1968
Selo: Kapp
Tags: #electronic, #experimental
Produção: The Magical Theatre Partnership, Barry Bryant
Subsensor é editado por Elson Barbosa.
Elson Barbosa é editor do Subsensor, produtor do selo Sinewave e baixista da banda Herod. Foi apresentador do podcast O Resto É Ruído, criador da plataforma de playlists comentadas contra.fm onde produziu os programas Noisenik, T20, Sinewave e Discografando, apresentador dos programas de rádio Noisenik na Antena Zero e Barulho na Rádio USP São Carlos, colaborador da #ListadasListas, editor do blog de playlists Discografando e colaborador bissexto em diversos sites de música.



