Subclássicos: THE VELVET UNDERGROUND — White Light/White Heat (1968)
Discoteca Básica de noise-rock, metal extremo, post-rock, noise, experimental e outras tags subterrâneas
Em 1968 o mundo da música era dominado pela psicodelia colorida, revoluções sonoras revestidas de flores e utopias de amor livre. Mas enquanto os Beatles cantavam “All You Need Is Love” e o Jefferson Airplane procuravam “Somebody to Love”, o Velvet Underground produzia algo mais sombrio, urbano e decadente.
White Light/White Heat não é um disco de transição — é uma ruptura. Se The Velvet Underground & Nico (1967) ainda flertava com doces melodias e estruturas reconhecíveis, aqui a banda arranca qualquer polidez que ainda restava. John Cale, adepto do minimalismo vanguardista de La Monte Young, e Lou Reed, com seu gosto pela literatura suja e marginal de William S. Burroughs, afastaram Andy Warhol e Nico e produziram uma obra corrosiva que rejeita tudo o que era considerado bom gosto. É música que não quer agradar, quer sobreviver como negação.
O disco abre com a faixa-título, um rock’n’roll quase convencional se não fosse o final torto e barulhento. “The Gift” é um conto mórbido de vingança embalado por uma jam instrumental distorcida, enquanto a voz de John Cale lê a história com total indiferença. “Lady Godiva’s Operation” tem uma melodia assobiável — a única no disco — com uma letra sobre uma operação transgênera. “Here She Comes Now” mantém o clima de decadência e arranjos minimalistas carregados de tensão. “I Heard Her Call My Name” é um rock de garagem com solos noise completamente fora dos padrões.
Mas tudo isso é apenas preparação para o cataclismo: “Sister Ray”, uma jam de 17 minutos sobre travestis, heroína, violência e morte. Registrada em um único take sem overdubs ou edição, “Sister Ray” atingiu níveis de altura e distorção que ultrapassaram os limites físicos dos equipamentos do estúdio, a ponto do engenheiro de som sair da sala indignado no meio da gravação. É punk antes do punk, noise antes do noise, e radical até os ossos.
Hoje, o disco é visto como um divisor de águas. Um dos primeiros álbuns a fazer do ruído não um efeito colateral, mas a própria estética central. Produzido com baixo orçamento e deliberadamente mal gravado, White Light/White Heat é um disco que desafia ouvintes menos preparados, e por isso mesmo influenciou toda uma linhagem de bandas: do punk à no wave, do shoegaze ao noise-rock, do Sonic Youth e Swans ao Suicide e Jesus and Mary Chain.
Reza a lenda que Brian Eno teria dito que “quase ninguém ouviu The Velvet Underground & Nico, mas quem ouviu montou uma banda”. No caso de White Light/White Heat, quem ouviu certamente também montou uma — e das mais barulhentas.
Ouve essa aqui: “Sister Ray”
THE VELVET UNDERGROUND — White Light/White Heat
Lançamento: 30/jan/1968
Selo: Verve
Tags: #noise-rock, #proto-punk, #art-rock, #experimental-rock
Produção: Tom Wilson



